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A Associação CLENARDVS tem como objectivo principal a promoção e o ensino da Cultura e das Línguas Clássicas, em Portugal e nos países de língua portuguesa.

É, essencialmente, uma associação de professores do Ensino Secundário e Universitário, que leccionam línguas clássicas, mas integra, também, nos seus corpos sociais, arqueólogos e historiadores, pois considera que a interdisciplinaridade é essencial para o conhecimento.

A Associação visa apoiar entidades e instituições públicas e privadas, escolas, alunos e docentes a integrar e promover projectos ligados à Antiguidade, levando à democratização do ensino da Cultura e das Línguas Clássicas e permitindo o livre acesso a este saber milenar.

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Ludi Taurii

Relevo Romano representando corrida de cavalos – Museu do Vaticano[1]

Os Ludi Taurii ou Taurilia eram jogos que se celebravam, de cinco em cinco anos, em Roma, em honra das divindades dos Infernos e foram instituídos por Tarquínio o Soberbo. Consistiam de corridas de cavalos no Circo Flamínio.

Estes jogos são de origem etrusca, mas a denominação latina Ludi Taurii surge por via popular, pois a palavra ‘θaura’ em etrusco significa túmulo e foi alterada etimologicamente para ‘taurii’.

Item simili de causa Circus Flaminius dicitur, qui circum aedificatus est Flaminium Campum, et quod ibi quoque ludis Tauriis equi circum metas currunt.[2]

‘O Circo Flamínia foi chamado assim, por esta razão. O qual foi construído em volta do Campo Flamínio, e porque neste lugar também, nos jogos taurinos, os cavalos correm em volta da meta[3].’

Per eos dies, quibus haec ex Hispania nuntiata sunt, ludi Taurii per biduum facti religionis causa.[4]

‘Por estes dias, em que esta notícia chegou de Espanha, os Jogos Taurinos foram celebrados por motivos religiosas, por um período de dois dias’


Bibliografia Geral:

Ernout, A e Meillet, A., Dictionnaeite Étymologique de la Langue Latine, Édition Klinckerck, 4.ª Ed. Paris, 1985.

Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.

[1] https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/conheca-o-escravo-que-se-tornou-uma-grande-celebridade-das-corridas-de-biga.phtml

[2] http://www.thelatinlibrary.com M. Terentius Varro – De Lingua Latina, V, 154.

[3] Pilar cónico que assinalava cada um dos extremos da espinha do circo Romano.

[4] http://www.thelatinlibrary.com TiTitus Livius – Ad urbe condita. XXXIX, 22.

Quinquatria minora

Minerva – Palácio Nacional de Queluz[1]

As Quinquatria minora (Quinquatrus minores ou minusculae) era festividades celebradas, entre os dias 13 e 15 de Junho, em honra de Minerva.

No ritual, flautistas com o rosto coberto com máscaras e vestidos com togas largas, percorriam as ruas da cidade num ambiente de bebedeiras e orgias e culminava junto ao templo de Minerva.

et iam Quinquatrus iubeor narrare minores. / nunc ades o coeptis, flava Minerva, meis. / ‘cur vagus incedit tota tibicen in Urbe? / quid sibi personae, quid stola longa volunt?’ / sic ego. sic posita Tritonia cuspide dixit (…)

‘temporibus veterum tibicinis usus avorum / magnus et in magno semper honore fuit:

cantabat fanis, cantabat tibia ludis, / cantabat maestis tibia funeribus; (…)

adde quod aedilis, pompam qui funeris irent, / artifices solos iusserat esse decem. / exilio mutant Urbem Tiburque recedunt: (…)

servierat quidam, quantolibet ordine dignus, / Tibure sed longo tempore liber erat. / rure dapes parat ille suo, turbamque canoram / convocat: ad festas convenit illa dapes. / nox erat, et vinis oculique animique natabant, (…)

nec mora, convivae valido titubantia vino / membra movent; dubii stantque labantque pedes. / at dominus “discedite” ait (…)

adliciunt somnos tempus motusque merumque, / potaque se Tibur turba redire putat. / iamque per Esquilias Romanam intraverat urbem, / et mane in medio plaustra fuere foro. / Plautius, ut posset specie numeroque senatum / fallere, personis imperat ora tegi, / admiscetque alios et, ut hunc tibicina coetum / augeat, in longis vestibus esse iubet; (…)

sum tamen inventrix auctorque ego carminis huius: / hoc est cur nostros ars colat ista dies.’[2]

“Mandaram-me narras as Quinquátrias menores. / Auxilia, Minerva, a minha empresa. / «Por que o flautista errante corre inteira a urbe? / Que más caras, que longas vestes trajam?» Depondo a lança, assim me responde Tritônia (…)

«No tempo dos avós, frequente era o flautista, / numa tarefa sempre muito honrada. / A flauta era tocada em templos e nos jogos, / e era tocada em tristes funerais. (…)

Pois u’edil ordenou que nas fúnebres pompas / pudesse haver apenas dez artistas. / Da Urbe se exilam, se retiram para Tíbur (…)

Morava em Tíbur u’homem digno, escravo outrora, / que fora libertado há muito tempo. / Um banquete em seu campo ele prepara e chama / os músicos, que à festa comparecem. / De noite, em vinho, mentes e olhos se encharcavam, (…)

Logo, embriagados pelo vinho, os convidados / movem-se, cambaleiam e tropeçam. / O dono diz: ‘Parti’ (…)

O tempo, o vinho e o movimento os adormecem, / e, bêbados, a Tíbur pensam ir. / Pelo Esquilino, então, a carroça entra em Roma, / e, de manhã, no Fórum se encontrava. / Pláucio, para enganar o Senado nos votos, / manda que eles em máscaras se ocultem; / aos outros os mistura – e, p’ra aumentar o grupo, / manda as flautistas porem longas vestes. (…)

Sou a inventora do instrumento e de seus cantos, / por isso seus artistas me cultuam.”[3]


Bibliografia Geral:

Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.

[1] http://matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=999171

[2] Ovídio – Os Fastos, Livro VI– vv.651-655; 657-660; 663-665; 669-673; 677-679; 681-688; 709-710.

[3] Ovídio, Os Fastos, tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Matralia

Leucótea amamentando Dioniso[1].

As Matralia (Matrales) eram festividades que se celebravam no dia 11 de Junho, em honra da deusa Mater Matuta. Deusa que, inicialmente, personificava a aurora, a luz matutina, o nascer do dia, e que passou a ser uma deusa protectora dos partos e dos nascimentos, atributo que estava na mitologia helénica a cargo da Deusa Ilitia. Em grego, Εἰλείθυια (Eileíthuia), em latim Ilithya, e cujo tema ἐλευθ- (eleuth-), de ἐλεύσομαι (eleúsomai) significa ‘aquele que vem’ ou ‘aquele que faz vir’, daí a sua relação com os nascimentos e os partos, os que estão para vir.

Mais tarde, passou a ter o atributo de protectora dos navegantes, e considera-se mãe de Portuno, deus marinho protector dos portos. Identificada com Leucótea, na mitologia grega e que salva Ulisses quando estava perdido no mar: “Foi então que o viu a filha de Cadmo, Ino de belos tornozelos – / chama-se agora Leucótea quem antes fora de fala humana: / no mar salgado granjeara da parte dos deuses uma honra divina. / Apiedou-se, comovida, de Ulisses, que tanto sofria.”[2]

Tinha, também, o atributo de amadurecer as espigas e, portanto, era também conhecida como deusa da agricultura.

Sérvio Túlio mandou que lhe fosse erigido um templo no Forum Boarium, próximo do porto de Roma e segundo a lenda quando chegara a Roma, fora transformada em deusa marinha. Ora quando chegou, as Bacantes estavam a celebrar ritos a Baco e Juno, dando conta da sua presença, instigou-as e tentaram maltratá-la, não fosse Hércules, que ouvindo os gritos dela, foi em seu auxílio.

E precisamente, no dia 11 de Junho, as matronas, mas apenas as que se haviam casado uma vez, se dirigiam a este templo e lhe ofertavam uns bolos assados sobre um pedaço de barro (testuatium). Do ritual consistia ainda a entrada, no templo, a mando das matronas de uma escrava, que era expulsa a vergastadas por elas, pois o culto à deusa estava-lhes negado. Faziam, de seguida rogos à deusa pelos seus filhos ou sobrinhos, que levavam ao colo e acariciavam.

ite, bonae matres (vestrum Matralia festum), / flavaque Thebanae reddite liba deae. / pontibus et magno iuncta est celeberrima Circo / area, quae posito de bove nomen habet. / hac ibi luce ferunt Matutae sacra parenti / sceptriferas Servi templa dedisse manus. / quae dea sit, quare famulas a limine templi / arceat (arcet enim) libaque tosta petat, (…)

arserat obsequio Semele Iovis: accipit Ino / te, puer, et summa sedula nutrit ope. / intumuit Iuno, raptum quod paelice natum / educet: at sanguis ille sororis erat. (…)

numen eris pelagi: natum quoque pontus habebit. / in vestris aliud sumite nomen aquis: / Leucothea Grais, Matuta vocabere nostris; / in portus nato ius erit omne tuo, / quem nos Portunum, sua lingua Palaemona dicet. (…)

Cur vetet ancillas accedere quaeritis? odit, / principiumque odii, si sinat illa, canam. / una ministrarum solita est, Cadmei, tuarum / saepe sub amplexus coniugis ire tui. / improbus hanc Athamas furtim dilexit; ab illa / comperit agricolis semina tosta dari: / ipsa quidem fecisse negas, sed fama recepit: / hoc est cur odio sit tibi serva manus.[3]

“Boas mães, ide às vossas festas, às Matrálias, / dai à deusa tebana os flavos libos[4] / Junto às pontes e ao Circo está a área celebérrima / cujo nome provém de um boi lá posto. / Dizem que nesse dia, ali, à mãe Matuta / as régias mãos de Sérvio um templo ergueram. / Qual deusa é? Por que do umbral do templo afasta / as servas, e tostados libos pede? (…)

Por obsequio de Jove ardeu Sêmele. Ino / acolheu-te, ó menino, e alimentou-te[5]. / Juno irritou-se, porque ao filho da rival / ela cria – porém da irmã é o sangue. (…)

«Serás nume do mar: e o ponto terá um filho / – impõe a tuas águas novo nome. / Leucótea os gregos chamarão, e nós, Matuta: / dos portos todo jus cabe a teu filho, que, p’ra nós é Portuno e, em sua língua, Palemo.» (…)

Perguntais porque escrava entrar não pode: o ódio; / e se Ino permitir direi a causa. / Ficha de Cadmo, u’a escrava tua costumava / de teu marido abraços receber. / A furto, Atamas[6] deliciou-a, e dela soube / que aos lavradores grãos torrados deste. / Negas o feito, mas a fama recebeste; / é por isso que a escrava mão odeias.”[7]


Bibliografia Geral:

Grimal, Pierre, Dicionário de Mitologia Grega e Romana (tradução de Victor Jabouile), Difel, Lisboa.

Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.

[1] Museu Nacional Romano, século , fresco da “Casa della Farnesina”.

[2] Homero, Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 4.ª edição: Abril de 2004, Canto V, vv.333-336, p. 100.

[3] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber VI, vv. 475-480; 485-488; 543-547; 551-558.

[4] Flava liba – referência aos bolinhos flavos, isto é, dourados, depois de cozidos.

[5] Referência a Ino, que, após Sémele, sua irmã, ter sido carbonizada pelos raios de Zeus, recolheu o pequeno Dioniso e educou, juntamente com os  seus filhos.

[6] Atamas fora casado com Leucótea em segundas núpcias.

[7] Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Vestalia

Estátua de virgem Vestal – Museu Nacional Romano[1]

As Vestalia (Vestales) eram festividades em honra da deusa Vesta, que ocorriam nos dias 28 de Abril e 9 de Junho. A deusa Vesta era a deusa sagrada do fogo da casa, corresponde à deusa Héstia, na mitologia grega. A deusa tinha um templo circular no Fórum de Roma, onde ardia o fogo sagrado e as sacerdotisas de Vesta, as Vestais[2], Vestales, tinham o cuidado de o manter aceso. Apenas uma vez por ano se extinguia, no último dia de Fevereiro, último dia do ano do antigo calendário Romano, mas era acendido solenemente no dia 1 de Março, primeiro dia do ano.

As Vestalia eram celebradas pelo moleiros e padeiros, em especial, uma vez que o fogo era essencial no exercício da sua actividade, a cozedura do pão nos fornos, então tinham uma relação estreita com o fogo, elemento essencial na sua actividade e símbolo da deusa Vesta.

Nestas festividades também participavam os burros, animal consagrado a Vesta, uma vez que exercia funções essenciais na transformação do Cereal em farinha, já que era usado para fazer rodar as mós dos moinhos.

Durante o ritual das Vestalia os burros e as mós dos moinhos eram adornados com grinaldas e coroas de flores. As matronas participavam na festa descalças, para poderem estar em contacto com a terra, elemento também com o qual Vesta se identifica.

Vesta, fave: tibi nunc operata resolvimus ora, / ad tua si nobis sacra venire licet. (…)

hic locus exiguus, qui sustinet Atria Vestae, / tunc erat intonsi regia magna Numae; / forma tamen templi, quae nunc manet, ante fuisse / dicitur, et formae causa probanda subest. / Vesta eadem est et terra: subest vigil ignis utrique: / significant sedem terra focusque suam. (…)

cur sit virginibus, quaeris, dea culta ministris? / inveniam causas hac quoque parte suas. / ex Ope Iunonem memorant Cereremque creatas / semine Saturni; tertia Vesta fuit. / utraque nupserunt, ambae peperisse feruntur; / de tribus impatiens restitit una viri. (…)

nec tu aliud Vestam quam vivam intellege flammam; / nataque de flamma corpora nulla vides. / iure igitur virgo est, quae semina nulla remittit / nec capit, et comites virginitatis amat. (…)

stat vi terra sua: vi stando Vesta vocatur; / causaque par Grai nominis esse potest. (…)

Ante focos olim scamnis considere longis / mos erat, et mensae credere adesse deos; (…)

venit in hos annos aliquid de more vetusto: / fert missos Vestae pura patella cibos. (…)

nde focum servat pistor dominamque focorum / et quae pumiceas versat asella molas.

[3]

“Vesta, me ajuda: a teu serviço ponho a voz; / que de teus ritos possam aproximar-se. (…)

Esse estreito lugar, que hoje é o Átrio da Vesta, / do cabeludo Numa era o palácio. / Dizem que se mantém a forma que houve o templo, / resta que se demonstre a razão. / Iguais são Vesta e a terra: um fogo eterno há nelas: / a terra e o foco a casa simbolizam. (…)

Perguntas por que a deusa é adorada por virgens? / Nesta parte direi também suas causas. / Da Satúrnia semente, Opes, dizem, gerou / Juno e Ceres, e Vesta foi terceira. / Duas casaram-se e geraram, uma só / das três negou-se a submeter-se a u’homem. (…)

Compreende, então, que Vesta é apenas chama viva / e que não nasce corpo algum das chamas. / Virgem por lei, nunca sementes ganha ou dá, / e ama, na virgindade, as companheiras. (…)

Mantém-se a terra por seu ‘viço’; daí vem ‘Vesta’ / – e na palavra grega a causa é a mesma. (…)

Era costume se assentar diante dos focos, / antigamente, e crer à mesa os deuses. (…)

Daqueles anos vem um vetusto costume: / um prato traz a Vesta as oferendas. (…)

O padeiro, por isso, e a burrinha que guia / as mós de pedra ao fogo e à deusa adoram. (…)”[4]


Bibliografia Geral:

Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.

[1] https://stringfixer.com/pt/Vestales

[2] As Vestais eram consagradas a Vesta por trinta anos, como sacerdotisas, e deviam manter-se virgens durante esse período do tempo. Terminado este, poderiam abandonar o sacerdócio e casar-se. Os castigos eram severos para as que não cumpriam a castidade, assim como para aquelas que não mantinham o fogo de Vesta sempre aceso.

[3] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber VI, vv. 249-250; 263-268; 283-288; 291-294; 299-300; 305-306; 309-310; 317-318;

[4] Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Carnaria

As Carnaria (Carnares) eram festividades em honra de Carna, deusa protectora dos órgãos vitais do homem e da assimilação dos alimentos. Enquanto deusa da infância preocupava-se pelo desenvolvimento e amadurecimento dos músculos das crianças. Já como deusa agrária, ocupava-se com o amadurecimento dos frutos e da engorda dos animais.

O ritual consistia na oferta de um puré de favas e toucinho, alimentos que, segundo Macróbio, contribuíam para dar força ao corpo, mais do que quaisquer outros e segundo Ovídio, quem os consumisse nesse dia, ficaria livre de dores nas entranhas.

Ovídío ainda nos relata que, inicialmente, começou por ser uma ninfa chamada Crane e que Jano, tendo-lhe tirado a virgindade, lhe atribui a protecção das ombreiras e dobradiças das portas e janelas. Carna tinha, portanto, também a função de afastar as Harpias ou Estriges, animal híbrido, meio ave, meio humano e que devorava as entranhas dos recém-nascidos.

Ovídio relata nos Fastos a salvação de Proca, futuro rei de Alba, que fora atacado por uma Harpia e acaba, assim, por interligar Carna, cuja função era proteger os órgãos vitais do ser humano e Cárdea, divindade Romana que tinha a função de proteger as portas e as dobradiças.

Por esta razão e por equívoco, Ovídio identifica Carna com a deusa Cárdea e acaba por também associar as funções protectoras das duas divindades.

Prima dies tibi, Carna, datur. dea cardinis haec est: / numine clausa aperit, claudit aperta suo. / unde datas habeat vires, obscurior aevo / fama; sed e nostro carmine certus eris. (…)

nde sata est nymphe (Cranaen dixere priores) / nequiquam multis saepe petita procis. (…)

viderat hanc Ianus, visaeque cupidine captus / ad duram verbis mollibus usus erat. (…)

nil agis, et latebras respicit ille tuas. / nil agis, en! dixi: nam te sub rupe latentem / occupat amplexu, speque potitus ait / ‘ius pro concubitu nostro tibi cardinis esto: / hoc pretium positae virginitatis habe.’ / sic fatus spinam, qua tristes pellere posset / a foribus noxas (haec erat alba) dedit. (…)

sunt avidae volucres (…)

nocte volant puerosque petunt nutricis egentes, / et vitiant cunis corpora rapta suis; (…)

est illis strigibus nomen (…)

in thalamos venere Procae: Proca natus in illis / praeda recens avium quinque diebus erat, / pectoraque exsorbent avidis infantia linguis; (…)

at puer infelix vagit opemque petit. / territa voce sui nutrix accurrit alumni, / et rigido sectas invenit ungue genas. (…)

pervenit ad Cranaen, et rem docet. illa ‘timorem / pone: tuus sospes’ dixit ‘alumnus erit.’ (…)

Pinguia cur illis gustentur larda Kalendis / mixtaque cum calido sit faba farre rogas? / prisca dea est, aliturque cibis quibus ante solebat, (…)

quae duo mixta simul sextis quicumque Kalendis / ederit, huic laedi viscera posse negant.[1]

“Deusa dos gonzos, Carna, é teu o primeiro dia, / e tudo, por teu nume, abre-se e fecha. / De onde vem tal poder, o tempo enubla a história / porém, pelo meu canto aprenderás. (…)

Ali nasceu u’a ninfa antes chamada Crane, / pedida, em vão, por muitos pretendentes. (…)

Um dia, Jano a viu e, tomado de ardor, / à inflexível falou com brandos ditos. (…)

«Nada podes fazer, ele te vê», / eu disse! Então, na rocha em que te ocultavas, / possuiu-te; e disse, ao ter o que esperava: / «Tens, por nossa união, o poder sobre os gonzos; / é o prémio por deixares de ser virgem». / Disse e lhe deu u’a vara branca, que podia / das portas afastar os tristes crimes. (…)

Há ávidas aves (…)

Voam de noite, pegam crianças não cuidadas / e, tiradas dos cercos, dilaceram-nas; (…)

Chamam-se estriges: (…)

Chegaram ao quarto de Proca. Cinco dias / apenas tinha Proca – pasto de aves, / que o peito do menino avidamente lambem. / Porém, vage o infeliz e pede ajuda. / À voz do alimento acorre a ama assustada / e, rasgadas por unhas, acha as faces. (…)

Procura Crane e explica o havido. Esta responde: / «Não temas: viverá quem amamentas».

Perguntas por que são comidas nas Calendas / o farro quente, as favas e o toucinho? / Carna é u’a deusa antiga, e como antes, se nutre: (…)

Quem quer que em junho os coma juntos nas Calendas, / das vísceras evita adoecer.”[2]


Bibliografia Geral:

Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.

Rodrigues, Nuno Simões, Mitos e Lendas da Roma Antiga, Livros e Livros, 2005, pp.243-244.

[1] Ovídio – Os Fastos, Livro VI– vv. 101-104; 107-108; 119-120; 124-131; 135-136; 139; 143-148; 151-152; 169-171; 181-182.

[2] Ovídio, Os Fastos, tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Mensis Iunius

Mensis Iunius era no calendário Romano antigo o quarto mês, que passou a ser o sexto, depois da reforma de Numa Pompílio.

O nome do mês está relacionado com a deusa Juno, esposa de Júpiter e que adoptou o epíteto de «Juno Moneta», isto é, a que avisa – moneō –, cujo aniversário era a 1 de Junho e tinha um templo em Roma em sua honra, datado de 344 a. C. Este nome pelo qual era conhecida deve-se ao facto de perante um ataque surpresa dos gauleses, os gansos, que no Capitólio estavam dedicados à Deusa, terão dado o alarme e assim evitado que entrassem na cidadela. Ovídio adianta ainda que junho vem de juntar, quando Tácio e Quirino juntaram os dois reinos.

Ainda quanto ao epíteto de «Junto moneta» alguns adiantam que se relaciona com moeda – moneta, ae -, visto que em 269 a.C. foi instalada nas proximidades do templo de Juno um centro de cunhagem de moedas e as peças cunhadas que daí saíam receberam o nome de moneta.

Hic quoque mensis habet dubias in nomine causas: / quae placeat, positis omnibus, ipse leges. (…)

ex illis fuit una, sui germana mariti; / haec erat, agnovi, quae stat in arce Iovis. (…)

‘Romulus… sic statuit, mensesque nota secrevit eadem: / Iunius est iuvenum; qui fuit ante, senum.’ (…)

haec ubi narravit Tatium fortemque Quirinum / binaque cum populis regna coisse suis, / et lare communi soceros generosque receptos, / ‘his nomen iunctis Iunius’ inquit ‘habet.’ (…)

Arce quoque in summa Iunoni templa Monetae / ex voto memorant facta, Camille, tuo. / ante domus Manli fuerat, qui Gallica quondam / a Capitolino reppulit arma Iove.[1]

“Tem também este mês dúbias causas p’r’o nome; / escolhe a que te agrada entre as que eu mostro. (…)

Uma era a irmã do esposo – era, eu reconheci, a que no Capitólio está com Jove. (…)

Rómulo… assim decidiu e separou os meses: / junho é dos jovens, maio foi dos velhos. (…)

Quando contou que Tácio e o valente Quirino / os dois reinos juntaram com seus povos, / e que entraram em lar comum o genro e o sogro, / disse: “vem de juntar de junho o nome”.(…)

E ainda a Juno Moneta um templo nesse dia / Camilo, por um voto, dedicou / sobre a casa de Mânlio – o que do templo a Jove / Capitolino os gálios repeliu.”[2]


[1] Ovídio – Os Fastos, Livro VI– vv.1-2; 17-18; 84; 87-88; 183-186.

[2] Ovídio, Os Fastos, tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.