Bem-vindo à página da CLENARDVS!

A Associação CLENARDVS tem como objectivo principal a promoção e o ensino da Cultura e das Línguas Clássicas, em Portugal e nos países de língua portuguesa.

É, essencialmente, uma associação de professores do Ensino Secundário e Universitário, que leccionam línguas clássicas, mas integra, também, nos seus corpos sociais, arqueólogos e historiadores, pois considera que a interdisciplinaridade é essencial para o conhecimento.

A Associação visa apoiar entidades e instituições públicas e privadas, escolas, alunos e docentes a integrar e promover projectos ligados à Antiguidade, levando à democratização do ensino da Cultura e das Línguas Clássicas e permitindo o livre acesso a este saber milenar.

REGISTE-SE AQUI e receba informações acerca das actividades desenvolvidas pela CLENARDVS.

Argei

Os Argei são bonecos ou efígies de junco, que em número de 27 (ou 30) eram lançados ao Tibre da pons Sublicius, pelas virgens vestais, vestidas de luto, depois da procissão presidida pelos Pontífices Máximos e magistrados. Esta cerimónia tinha lugar anualmente, a 14 de Maio, em Roma.

O significado deste ritual e destas cerimónias é obscuro. Segundo Ovídio, e uma vez que os “Romanos atribuíam muitos feitos ao herói Hércules, aquando da estada dele na sua terra”[1], era comum haver imolações de humanos a Saturno pelos antigos povos Romanos e Hércules terá acabado com esses sacríficos e substitui as vítimas humanas por homens de palha ou junco. Ensinou, assim, os habitantes do território itálico a sacrificar a Saturno e a acalmar a fúria divina recorrendo às efígies de junco atirando-as ao Tibre, em vez dos humanos.

Alguns adiantam que estas efígies representavam os companheiros de Hércules, que na sua maioria seriam oriundos de Argos e que como desejavam regressar à pátria, quando morressem, pediram que os lançassem ao Tibre para que assim a força das águas os levasse de novo à Grécia.

Outros adiantam que esses companheiros de Hércules, arrependidos de terem deixado os seus e a sua pátria, desesperados se lançaram ao Tibre.

Ovídio adianta ainda que esta esta cerimónia se relaciona com o costume que havia de os jovens lançarem ao Tibre os anciãos para que pudessem apenas eles usufruir do direito de voto.

Tum quoque priscorum Virgo simulacra virorum / mittere roboreo scirpea ponte solet. (…)

pars putat, ut ferrent iuvenes suffragia soli, / pontibus infirmos praecipitasse senes. (…)

venit et Alcides, turba comitatus Achiva: (…)

magnaque pars horum desertis venerat Argis: / montibus his ponunt spemque laremque suum. / saepe tamen patriae dulci tanguntur amore, / atque aliquis moriens hoc breve mandat opus: / “mittite me in Tiberim, Tiberinis vectus ut undis / litus ad Inachium pulvis inanis eam.”[2]

“A Vesta, de uma ponte, então, também costumam / arremessar anciãos feitos de junco (…)

Uns creem que os jovens pr’a sozinhos sufragarem, / arrojaram de u’a ponte os fracos velhos. (…)

Acompanhado dos aqueus, chegou o Alcides[3]: (…)

Deles a maior parte havia vindos de Argos, / e nesses montes põem lar e esperanças. / A saudade da pátria os alcança, porém, / e o moribundo pede um breve esforço: / «Lancem-me ao Tibre! E, pelo Tibre transportado, / que eu, poeira vã, alcance a ináquia praia.»”[4]


[1] Rodrigues, Nuno Simões, Mitos e Lendas da Roma Antiga, Livros e Livros, 2005, p. 43.

[2] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber V, vv.621-622; 633-634; 645; 651-656.

[3] Alcides é um dos nomes de Héracles, em homenagem ao seu avô Alceu.

[4] Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Lemuralia

Memento mori – Mosaico de Pompeios – Museu Arqueológico de Nápoles

As Lemuralia (Lemurales) ou Lemuria (Lemures) eram festividades que se celebravam nos dias 9, 11 e 13 de Maio para conjurar os lémures, as almas dos mortos. Estes dias eram considerados nefastos, portanto as populações durante estes dias não contavam com a protecção e ajuda dos deuses, evitando, assim, fazer negócio e trabalhar, pois poderiam ser mal sucessidos. Eram, portanto, dias dedicados aos deuses e apenas a actividade religiosa estava permitida.

O ritual destas festividades ocorria de noite e era realizado pelo pater familias. Assim, à meia noite dos dias 9, 11 e 13 de Maio, o pater familias levantava-se da cama descalço, enquanto todos dormiam e o silêncio reina em toda a casa, e introduzia o dedo polegar dentro dos outros, fazendo-o estar. Com este gesto apotropaico pretende afastar os malefícios ou desgraças e proteger-se dos mortos. Dirigia-se, então, a uma fonte e aí lavava as mãos, depois voltava-se e apanhava umas favas negras e atirando-as para trás dizia a seguinte fórmula: “Eu espalho estas favas, e por elas me redimo, e aos meus”. Esta fórmula era repetida nove vezes, sem olhar para trás, enquanto os lémures se ocupavam de recolhê-las. De novo se lavava com água e enquanto fazia soar um objecto brônzeo, repetia nove vezes a seguinte fórmula: “Manes de meus antepassados, ide-vos daqui”.

Segundo Ovídio, a origem destas festividades remontam aos inícios da fundação de Roma, nomeadamente a Rómulo que as instituiu para que o fantasma de seu irmão fosse aplacado, que inicialmente foi apelidado de Remuria e depois por uma troca de letras passou a designar-se por Lemuria.

nox ubi iam media est somnoque silentia praebet, / et canis et variae conticuistis aves, / ille memor veteris ritus timidusque deorum / surgit (habent gemini vincula nulla pedes), / signaque dat digitis medio cum pollice iunctis, / occurrat tacito ne levis umbra sibi. / cumque manus puras fontana perluit unda, / vertitur et nigras accipit ante fabas, / aversusque iacit; sed dum iacit, ‘haec ego mitto, / his’ inquit ‘redimo meque meosque fabis.’ / hoc novies dicit nec respicit: umbra putatur / colligere et nullo terga vidente sequi. / rursus aquam tangit, Temesaeaque concrepat aera, / et rogat ut tectis exeat umbra suis. / cum dixit novies ‘manes exite paterni’ / respicit, et pure sacra peracta putat. / dicta sit unde dies, quae nominis exstet origo / me fugit: ex aliquo est invenienda deo.

(…)

Romulus ut tumulo fraternas condidit umbras, / et male veloci iusta soluta Remo,

(…)

umbra cruenta Remi visa est adsistere lecto,

(…)

ut secum fugiens somnos abduxit imago, / ad regem voces fratris uterque ferunt. / Romulus obsequitur, lucemque Remuria dicit / illam, qua positis iusta feruntur avis. / aspera mutata est in lenem tempore longo / littera, quae toto nomine prima fuit; / mox etiam lemures animas dixere silentum: / hic sensus verbi, vis ea vocis erat.[1]

“À meia-noite, quando sono dá o silêncio, / e os cães e os vários pássaros se calam, / o homem que os deuses teme e cumpre os velhos tiros / levanta-se, e traz nus os gêmeos pés. / Juntando o dedo médio ao polegar, dá estalos, / p’ra que nenhuma sombra lhe apareça. / Quando, na água da pura fonte as mãos perlava, / vira-se, apanha adiante negras favas, / joga-as p’ra trás, mas antes diz: «Eu as espalho, / e pelas favas me redimo, e aos meus». / Nove vezes repete e não se volta: o espectro / as recolhe e, invisível o acompanha. / De novo, n’água, o homem se lava; soa o bronze / e roga de sua casa saia o espectro. / Nove vezes repete: «Ide, manes paternos». / Olha em volta e reputa pronto o rito. / Fogem-me a origem e o motivo de chamarem-se Lemúrias: algum deus revelará. (…)

Quando os manes do irmão Rômulo sepultou, / cumprindo ao veloz Remo as honras fúnebres, (…)

Viu-se achegar ao leito o fantasma de Remo, (…)

Quando a sombra, ao fugir, levou consigo os sonos, / Os dois [Fáustulo e Aca] ao rei a voz do irmão levaram. / Rómulo acata e de Remúria chama o dia / em que aos avós se levam oferendas.  No longo tempo, foi mudada em branda a rude / letra que aquele nome começava. / Logo, de lêmure chamou à alma dos mortos: / esse é o sentido e a força da palavra.”[2]


[1] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber V, vv. 429-446; 451-452; 457; 477-484.

[2]  Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Festa das Lemuria: os mortos e a religiosidade na Roma Antiga, Regina Maria da Cunha Bustemante, Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011

Oficinas de Cerâmica Grega e Aulas de Grego Vivo

Na semana de 2 a 6 de Maio, o Professor Mario Díaz Ávila, docente de Grego Clássico na Escola Secundária Enric Valor de Picanya, em Valência, e membro da direcção da Associação Cultura Clásica, em Espanha, visitou algumas escolas portuguesas, públicas e privadas, e contactou com diversos professores de Latim e de Grego, ao abrigo do programa europeu Job Shadowing.

Durante a visita às escolas, o Professor Mario Díaz Ávila dinamizou ateliês de cerâmica grega – com a confecção de altos-relevos e de pratos gregos – e ministrou aulas de Grego Antigo – Língua Viva, para mais de trezentos e cinquenta alunos, distribuídos entre a Escola Secundária Sebastião e Silva, a Escola Básica 2,3 Delfim Santos, a Escola Secundária de Camões, o Colégio Militar e o Colégio de São Tomás, estabelecimentos sediados no distrito de Lisboa.

A coordenação das visitas às escolas esteve a cargo da Associação CLENARDVS, sob a orientação do Professor Horácio Ramos, docente em destacamento na associação, que acompanhou em permanência o Professor Mario Díaz Ávila durante as actividades.

Floralia

Flora – Quinta da Regaleira

As Floralia (Florales) eram festividades em honra de Flora e aconteciam entre os dias 28 de abril e 3 de Maio. Foram instituídas em 238 a.C. e foram interrompidas durante mais de 100 anos, sendo retomadas a partir de 173 a.C.

Trata-se de um festival de cariz popular. A responsabilidade da sua organização estava a cargo dos edis da plebe e estava marcado pela licenciosidade, sendo muito festejado pelas cortesãs.

O ritual incluía representações de carácter leviano de mimos nos teatros e no anfiteatro aconteciam caçadas de lebres e cabras, animais que eram destruidores dos jardins e dos campos, prejudicando, assim a produção agrícola e os espaços de lazer. Ora, a deusa Flora era a protectora das plantas e das flores, assim como das culturas dos cereais e das árvores de fruto, por conseguinte estes espectáculos procuravam proteger a flora. As pessoas vestiam roupas coloridas, procurando, desta forma, representar a policromia da natureza. Ao cair da noite iluminavam-se as ruas e a diversão e a beleza das vestes e dos adornos das pessoas proporcionavam um ambiente de alegria pela noite dentro.

Cum Phrygis Assaraci Tithonia fratre relicto / sustulit immenso ter iubar orbe suum, / mille venit variis florum dea nexa coronis; / scaena ioci morem liberioris habet. / exit et in Maias sacrum Florale Kalendas: / tunc repetam, nunc me grandius urget opus.[1]

“Quanto a titônia o irmão de Asáraco deixar, / e três vezes se erguer no imenso céu, / chega Flora, por mil grinaldas coroada: / mais liberais costumes tem o teatro. / De Flora a festa alcança as Calendas de maio – / voltarei; mor empenho ora me chama.”[2]


[1] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber IV, vv.943-948.

[2] Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.

Mensis Maius

Mosaico do Museu de El Djem, na Tunísia.

A origem do mês de Maio gera alguma controvérsia e Ovídio, n’ As Metamorfoses dá-nos conta dessa problemática e das dúvidas que subsistiam.

O Mosaico do Museu de El Djem, na Tunísia, é, sem dúvida, influenciado pela versão da mãe de Hermes, deus Mercúrio da Mitologia Romana. Ora, em tempos muito antigos, em Roma, também existiu uma deusa Maia, que em nada tinha a ver com a deusa grega Mαῖα. O mês de Maio, já nos primórdios em Roma, era consagrado a esta deusa Maia, que apelidavam de Bona Dea. Com a introdução da cultura helenista em Roma, dá-se uma associação entre ambas as deusas, acabando por se tornar a mãe de Mercúrio.

Quaeritis unde putem Maio data nomina mensi? / non satis est liquido cognita causa mihi.

(…)

Romulus hoc vidit selectaque pectora patres / dixit: ad hos urbis summa relata novae. / hinc sua maiores tribuisse vocabula Maio / tangor, et aetati consuluisse suae.

(…)

quarum Maia suas forma superasse sorores / traditur et summo concubuisse Iovi. / haec enixa iugo cupressiferae Cyllenes / aetherium volucri qui pede carpit iter;

(…)

at tu materno donasti nomine mensem, / inventor curvae, furibus apte, fidis.[1]

“Perguntais de onde eu penso o nome a vir a maio? / Para mim não é muito clara a causa. (…)

Rómulo o percebeu: escolher senadores / e da nova cidade encarregou-os. / Assim, os maiores a maio dão o nome, / penso que são cultuados pela idade. (…)

“Dizem que Maia superava em formusura / as irmãs, e com Jove se deitou. / No ciprestífero Cilena ela pariu / o deus que corta, alípede, o espaço[2]. (…)

Mas tu, deus dos ladrões, da cítara o inventor1, / deste o nome da mãe ao mês de maio.”[3]


[1] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber IV, vv.1-2; 71-74; 85-88;103-104.

[2] Deus Mercúrio.

[3] Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.