TRÓIA

Tróia, uma cidade fundamentalmente dedicada à preparação de produtos piscícolas, dada a sua localização privilegiada junto ao estuário do Sado, teve uma ocupação que vai do século I ao V.
Trata-se de Monumento Nacional, por Decreto de 16 de Junho de 1910, D. G. n.º 136, de 23 de Junho de 1910.


Situa-se numa língua de areia da península que forma a margem esquerda do estuário do Sado, estendendo-se por uma faixa de quase dois quilómetros.
O seu estado de conservação é relativamente bom e o complexo conserveiro mantém, ainda, uma apreciável quantidade de construções e testemunhos visíveis.
O complexo industrial é constituído por um amplo conjunto de tanques de salga (cetárias) de peixe de diferentes tamanhos, bem como à produção de garum (um famoso condimento ao tempo dos Romanos).
Para além do complexo fabril, é de assinalar a existência de uma zona habitacional, com residências de um ou mais pisos, denominada pela Rua da Princesa, e ainda um balneário localizado junto a uma das fábricas.
Os vestigios até agora conhecidos fazem, portanto, crer que se tarava de um gigantesco aglomerado urbano industrial de transformação e processamento de peixe que, «com as suas actividades acessórias e complementares, quase monopolizou a economia do baixo Sado durante a época imperial romana.
Estrategicamente localizada, mas implantada numa zona arenosa, sem anel agrícola que a pudesse tornar auto-suficiente, faltou-lhe ainda a existência local de madeiras, barreiros e pedreiras, que obrigou a uma organizada teia de interdependências no baixo Sado e que levou o povoado à rápida decadência e ao seu abandono após a ruptura dos circuitos mercantis. Tróia teve a sua única razão de existência na pesca intensiva e consequente salga industrializada do peixe, e desapareceu graças ao fim da sua comercialização maciça»

Citação a partir de: DIAS DIOGO e Paixão, António Cavaleiro, Ânforas de escavações
no povoado industrial romano de Tróia, Setúbal. Aqui


«As ruinas de Tróia são conhecidas desde o século XVI, época em que Gaspar Barreiros e André de Resende as indicam, erradamente, como sendo as da cidade romana de Cetóbriga (actual Setúbal). Ignora-se o nome antigo deste lugar. André de Resende escritor quinhetista, humanista e, como lhe chamou Leite de Vasconcelos “o pai da arqueologia portuguesa” ali realizou pesquisas. A designação “Tróia” encontra-se registada em documentos datados do século XVI. Ao longo dos séculos XVII e XVIII são levadas estátuas, colunas, inscrições e outros vestígios desta estação. No séc. XVIII, organizada pela Infanta D. Maria, futura D. Maria I, realiza-se importante escavação. No século XIX, com o intuito de escavar Tróia, surge em Setúbal a primeira sociedade arqueológica do país, a “Sociedade Arqueológica Lusitana”. Desenvolve trabalhos entre 1850 e 1856. Cresce, e atrai, gradualmente, novos membros. Entre as figuras convidadas pela “Sociedade” a visitarem Tróia, encontram-se o Duque de Palmela e o próprio D. Fernando II, mais tarde seu protector. Nos finais do século XIX, inícios do século XX, são publicados os primeiros estudos sobre as ruínas de Tróia. Destacam-se os trabalhos de José Leite de Vasconcelos e Inácio Marques da Costa. As primeiras escavações arqueológicas metódicas iníciam-se 1947 e 1948 dirigidas por Manuel Heleno, professor na Faculdade de Letras de Lisboa e 2º director do Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos até 1967 (hoje, Museu Nacional de Arqueologia). Colaboram nestas escavações Fernando Bandeira Ferreira nas décadas de 40 e 50, e, Manuel Farinha dos Santos e D. Fernando de Almeida na década de 60. Este último, sucede a Manuel Heleno na direcão do Museu, e das escavações de Tróia até 1976. Centra os seus trabalhos no núcleo religioso, pondo a descoberto o complexo do templo paleocristão, as oficinas de salga que o circundam, assim como, a necrópole das sepulturas de mesa e parte da oficina de salga a sudeste desta. Estas escavações, não obstante algumas paragens, continuam até 1973. António Cavaleiro Paixão, colaborador de D. Fernando de Almeida foi o técnico responsável de 1976 a 2004. Este período, caracteriza-se por trabalhos de escavação menores e levantamento topográfico de toda a estação, destacando-se ainda, a realização de alguns trabalhos de conservação e restauro. Na década de 90 do século XX publicam-se dois importantes estudos interpretativos das ruínas de Tróia. O primeiro, da autoria de Robert Étienne, Yasmine Makaroun e Françoise Mayet, intitulado Un grand complexe industriel à Tróia (Portugal) (1994). Foca a importância do sítio enquanto produtor de salgas de peixe. O segundo, inserido na obra de Justino Maciel, Antiguidade tardia e paleocristianismo em Portugal, debruça-se sobre o núcleo religioso da basílica paleocristã. Em 2005, ao abrigo do protocolo celebrado com o IPPAR e o IPA (IGESPAR), com o intuito da salvaguarda, recuperação, restauro e a valorização das Ruínas, é criada uma equipa de Arqueologia responsável por este sítio arqueológico. Após a descoberta de alguns fornos, compreendeu-se também, que recipientes cerâmicos e louças de cozinha eram fabricados em oficinas localizadas na margem direita do rio. O abundante espólio recolhido ao longo das sucessivas campanhas de escavação permite situar no séc. I d.C. o início da ocupação, que se estende até aos sécs. V/VI d. C.

Frescos da Basílica Paleocristã.

Fontes: Adília Alarcão, in “Portugal das Origens à Época Romana, MNA, 1989. Site: (www.troiaresort.net). Ara a Liberius: Durante escavações feitas pela equipa do Museu nos anos 1950»
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=118618&EntSep=3#gotoPosition
ALGUMA BIBLIOGRAFIA